domingo, 21 de janeiro de 2018

A difícil arte de nos tornarmos pessoas melhores.

Olá pessoal, tudo bem?
Ano novo, vida nova, não é? Nem sempre, todo começo de ano queremos mudar nossas vidas, queremos que os 365 dias do novo ano represente novidades e novos rumos, mas como fazer?
Falamos tanto que colhemos o que plantamos, mas nem sempre temos clareza do que estamos realmente fazendo.
Sophia Rodovalho, psicologa em Limeira-SP, escreve aos domingos no portal Rápido no ar nos dá a dica de como podemos "plantar novas sementes" para mudarmos o que desejamos em nossa vida.

A difícil arte de nos tornarmos pessoas melhores

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Seu Filho não quer ir para a escola?

Esta foi a minha participação no site Disney Bubble



COMPORTAMENTO

Meu filho não quer ir para a escola. O que faço?


Ele chora, se recusa a colocar o uniforme e até fica doente para não ir ao colégio? É possível sair dessa saia justa

Arthur tinha 8 anos e era aluno do terceiro ano do Ensino Fundamental. Sua mãe, Fernanda Souza, percebia que o filho se mostrava cada vez mais cabisbaixo e desanimado quando o assunto era a escola. O menino chegava a pedir à mãe para não ir ao colégio.
“Hoje sabemos que isso aconteceu por alguns motivos. O ensino começou a ficar mais complicado, o que exigiu mais das habilidades dele. Além disso, a nova professora não respeitava a sua timidez e isso o deixava cada vez mais retraído”, conta Fernanda.
Para a criança se sentir bem na escola, ela precisa estar adaptada. “Hoje em dia, as instituições se empenham em oferecer um ambiente gostoso. Então, por mais complexas que sejam as atividades, as crianças geralmente gostam do colégio. Se ela passa a demonstrar alguma insatisfação, é realmente importante levantar a antena”, comenta a psicóloga infantil Daniella Freixo de Faria.
Fernanda estava bem atenta e, por conta desse episódio, sua rotina com Arthur mudou completamente. Além de muita conversa - em que os pais explicavam sobre a importância de frequentar as aulas e relembravam sobre a presença dos amigos no ambiente escolar - Fernanda deixou seu emprego para poder acompanhar os estudos do filho de perto.
Além disso, a mãe estreitou seus laços com a escola e, aos poucos, conseguiu que a nova professora não insistisse mais na mudança de comportamento de Arthur.
“Tive a ajuda das educadoras dele dos anos anteriores e das coordenadoras do colégio. Ele é um menino tímido, isso é da personalidade dele, não adianta forçá-lo a mudar. Quando ela passou a respeitar mais a individualidade dele, tudo fluiu melhor”, conta Fernanda.
“Qualquer criança pode ter dificuldades de adaptação durante a vida escolar, mas aquelas em fase de alfabetização, que são muito tímidas ou que sofrem bullying estão entre os perfis mais comuns”, comenta a psicopedagoga Simone Gutierrez.
Além disso, o rendimento escolar pode ser prejudicado por alguma perda ou mudança familiar drástica, como um divórcio, por exemplo. Não hesite em procurar ajuda. “A parceria entre a escola e a família é crucial. É nessa ponte que a criança vai perceber que todos estão ali lutando por ela”, comenta Daniella.
No caso de Arthur, nesse meio tempo, ele foi matriculado em algumas atividades extracurriculares dentro da escola na tentativa de inseri-lo mais no ambiente escolar. A mãe acredita que essa decisão foi assertiva e fez com o filho passasse a ver o colégio de uma maneira diferente.
Só tinha um problema: quando as coisas começaram a entrar nos eixos, um semestre inteiro de aulas já havia passado e as notas de Arthur estavam baixas. Foi preciso muito esforço de toda a família para que ele fosse aprovado.
“Todos nós sofremos. Ele quase reprovou e chorou demais quando conseguiu passar de ano”, relembra a mãe. Ela acredita que agora, no quarto ano, tudo será diferente. E muito melhor!
Os pequenos também reclamam
Raquel Cassoli passou maus bocados com o seu filho Bruno. Quando ele tinha apenas 2 anos, era só falar em escola que o escândalo começava: não queria colocar uniforme, chorava e fazia manha até chegar no colégio.
“Eu me atrasava todos os dias para o trabalho. Lembro que, em um deles, precisei colocar o sapato nele 5 vezes. Até eu chorei”, conta a mãe. Bruno nunca tinha oferecido resistência e já ia para a escola desde os 5 meses de vida. Por que isso estava acontecendo?
“Em uma reunião de pais, descobri que ele estava passando muito tempo com crianças maiores e era isso que o fazia se negar a ir. Tentamos negociar uma mudança com o colégio, mas não conseguimos. Mudamos o Bruno de escola e hoje está tudo bem”, conta.
Identifique o problema e saia dessa
  • Fique atenta aos sinais do seu filho. Quando há algum problema na escola, nem sempre a criança se recusa a ir. Preste atenção caso apareça um desânimo exagerado ou até algumas doenças sem motivo aparente.
  • É natural que, no retorno das férias, as crianças tenham mais preguiça para voltar aos estudos. Uma boa ideia é retomar a rotina da escola uma semana antes da volta às aulas: horários certinhos para dormir e se alimentar podem ajudar.
  • Muitas crianças podem reclamar sobre a escola após o período de adaptação. É quando elas percebem que o colégio realmente faz parte de sua rotina e ficar em casa parece ser mais prazeroso. Reforce a importância da escola através do diálogo – e, acredite: é só uma fase.
  • Todas as crianças precisam estabelecer bons vínculos com seus professores, principalmente aquelas menores de 8 anos. O pequeno deve se sentir seguro dentro da escola e ver no adulto uma figura de confiança e carinho.
  • Acompanhe os estudos das crianças de perto. Ajude seu filho a fazer lição de casa, leia para ele e compareça às reuniões de pais.
  • Não hesite em procurar profissionais especializados, caso não esteja dando conta do recado. Psicólogas infantis e psicopedagogas são sempre bem-vindas.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

A sociedade através do espelho e o que ela encontrou lá... Reflexões críticas sobre 13 reasons why e um pouco além.

Por não dominar o assunto como gostaria, encontrei nas palavras do colega Netto o sentido e significado que tentei dar, não ao seriado (porque ainda não assisti), mas ao debate sobre o tema do suicídio que a tele serie suscita.

A sociedade através do espelho e o que ela encontrou lá... Reflexões críticas sobre 13 reasons why e um pouco além.


                                                                                                         por: Nilson Berenchtein Netto 

(Segue meu quinhão de contribuição nesse debate sobre 13 reasons why e o suicídio, peço desculpas pelo tamanho, que é inadequado para o veículo, mas com menos que isso não seria capaz de abordar adequadamente a questão e com esse tamanho, ainda me parece insuficiente. Agradeço a paciência na leitura e as críticas que venham! O trecho entre colchetes foi acrescentado frente às importantes críticas feitas pela companheira Ângela Benetti.)

Frente ao furor que vem causando a série “13 reasons why”, tanto pela atenção que despertou no público, quanto pela preocupação que despertou em pais e nos profissionais, principalmente da área da saúde e da educação, como pela imensidão de opiniões, com os mais diversos embasamentos ou até mesmo sem eles, algumas reflexões se fazem necessárias.
Não devia ser surpresa o fato de que uma plataforma como a Netflix, sendo uma empresa capitalista, estaria preocupada com questões comerciais, ou seja, estamos falando de uma série comercial e não de arte, que está muito mais relacionada com o entretenimento e o lazer do que com a elevação espiritual da humanidade. É como tal que essa série deve ser tratada.
Não é meu objetivo discutir a série em seus aspectos técnicos, porque sequer tenho competência para tanto e tampouco, me parece ser essa, de fato, a questão central a ser tratada e antes de seu tratamento específico, há algumas questões que precisam ser elucidadas.
Nos últimos anos, talvez 3 ou 4, a temática do suicídio vem sendo tratada com uma frequência muito maior do que o vinha, tratamento esse motivado por uma intenção preventivista da Organização Mundial da Saúde, seus representantes e daqueles que de alguma maneira estão de acordo com suas propostas e por elas se pautam. Nesse sentido, o aumento da divulgação e discussão sobre o tema vem marcado por uma determinada compreensão do fenômeno, diga-se de passagem, aquela que é hegemônica.
Vale aqui marcar o fato de que a Organização Mundial da Saúde é uma instituição da ordem, ou seja, ela cumpre um papel na manutenção das relações sociais do modo de produção capitalista. Isso se evidencia no tratamento que dá a um conjunto de fenômenos, entre os quais o suicídio. Em geral, transformando as múltiplas determinações desse fenômeno complexo em uma quase monocausalidade de caráter orgânico ou psíquico.
Se tomarmos os manuais de prevenção ao suicídio produzidos por essa organização, principalmente a partir do ano 2000, veremos que, em sua totalidade, são profundamente marcados por uma compreensão patologizante, principalmente de caráter organicista. Na medida em que associa, de forma quase imediata, o suicídio com os transtornos psíquicos, a OMS e seus representantes reduzem as causas de um fenômeno de natureza complexa a outro, de natureza tão complexa quanto o primeiro – a saber, os transtornos psíquicos – e encerram por ali o assunto, sem buscar as causas profundas de um e de outro, no conjunto das relações sociais estabelecidas pelas pessoas em uma determinada cultura, produto de uma determinada sociedade em um determinado momento histórico.
Assim, temos realmente uma ampliação da exposição, divulgação e discussão do tema, mas marcada por esse viés reducionista que (analisando a complexidade do ser social a partir de suas características físico-químicas), em última instância, individualiza a questão, remetendo às características orgânicas e/ou psíquicas dos sujeitos a causa e a origem do fenômeno.
Além disso, as cartilhas da OMS possuem um viés profundamente pragmático e tutelar, são escritas para quem possa impedir alguém de tirar a própria vida, mas não apresentam o interesse em promover o debate entre os sujeitos que por ventura, possam ser os maiores interessados em conhecer e aprofundar sua compreensão sobre o assunto, tratando um tema que veio, historicamente, tornando-se um tabu, dessa exata maneira. Não é diferente na divulgação que vem sendo feita sobre o tema, o caráter informativo é limitado a essas mesmas características. De fato não se visa a informar, discutir e conhecer as origens da questão, mas apenas impedir, imediatamente, que ela ocorra e nada além, fazendo, em geral, que as pessoas continuem vivendo submetidas às mesmas condições que lhe produziam o desejo de tirar suas próprias vidas.
Aqui entra a questão sobre a série da Netflix que, mesmo deixando a desejar em qualidade técnica, como indica a crítica especializada e com o que eu concordo, aborda a questão por outra perspectiva.
O simples fato de, em momento algum (a menos que tenha escapado à minha percepção), a personagem Hannah tenha sido tratado como uma “doente mental” já me parece uma vitória, o que não implica na série ter também os seus deméritos, para além da ausência da qualidade técnica.
Sendo uma série comercial, produzida por uma empresa capitalista, é evidente que ela trará o conjunto dessas marcas e deve ser analisada dentro de seus próprios limites. Assim, vemos nela um conjunto de expressões de um determinado senso comum, sem sequer algum questionamento ou contextualização disso, ela assume aquilo que for vendável e ponto final. Mas até aí, seu demérito está em apenas reproduzir o que já está posto para além dela, de forma acrítica, como estamos mais do que acostumados a ver para todos os lados.
A série se propõe a abordar um fenômeno que, como dito anteriormente, está em alta, com muita visibilidade (e com uma determinada visibilidade) e propõe-se a fazê-lo de um determinado lugar, o que também já foi indicado. O fenômeno apresentado é o suicídio, mais especificamente o suicídio entre adolescentes, um fenômeno que sabidamente cresce globalmente e esse crescimento também costuma ser abordado de uma determinada maneira, geralmente, atribuindo o fato a um conjunto de características que seriam típicas dessa faixa etária, como a impulsividade, a rebeldia, o inconformismo, a agressividade, as crises existenciais e afins.
Dessa maneira, a adolescência é naturalizada e universalizada e com isso apagam-se suas características históricas, sociais e culturais. A adolescência é o produto de uma determinada forma de produção e reprodução da vida, é a expressão de uma determinada forma de organização da sociedade para isso, e não um fenômeno natural, da ordem do desenvolvimento biológico, como o é a puberdade (que ainda assim, não está desligada das outras esferas mencionadas da vida humana).
Na medida em que o modo de produção capitalista foi se implementando e consolidando, pelos mais diversos motivos, que não caberão ser discutidos aqui, mas que podem ser encontrados, inclusive nas posições defendidas pelos principais ideólogos dessa sociedade, como Adam Smith ou Thomas Malthus, os jovens passaram a ocupar um determinado lugar nas relações sociais e esse lugar, vale dizer, numa sociedade de classes, sofre também a determinação da classe à qual esse jovem pertence. Por um lado, tem-se os jovens filhos da burguesia, que dado o desenvolvimento das forças produtivas, podem ver-se poupados ao trabalho e são instruídos para a gestão dos negócios das suas famílias; além destes, os jovens das classes intermediárias, que pelos mesmos motivos apresentados em relação às forças produtivas e, sempre que possível, dada a possibilidade da mobilidade social, criada e alardeada por esse modo de produção e reprodução da vida, eram poupados ao trabalho imediatamente e dedicavam-se à qualificação de sua força de trabalho para ocuparem lugares de destaque como trabalhadores com o interesse de alçarem a outra condição e por outro lado, tem-se os filhos da classe trabalhadora, que a princípio, eram inseridos diretamente na produção desde a mais tenra idade, mas que, dado um conjunto de fenômenos, que vão da crescente destruição de força de trabalho por parte da burguesia até o aumento dos índices de violência, começam a ocupar um determinado lugar e começam a ser destinados não mais (ou não só) às fábricas, mas às instituições escolares, para qualificarem sua força de trabalho e se tornarem trabalhadores de um determinado tipo, diferentes daqueles das classes médias.
Na medida em que esse processo ocorre, produz-se um conjunto de características que hoje nos aparecem como típicas, naturais e universais aos sujeitos que se encontram em um determinado período da vida.
Com isso, quero dizer que as características da adolescência são um produto da forma como a sociedade capitalista se organiza, não um fenômeno natural, tampouco universal e certamente, nem a Organização Mundial da Saúde, nem seus representantes, muito menos a série televisiva a tratam ou sequer a entendem dessa maneira e isso, certamente, tem consequências.
Uma das características da série que vem sendo indicada como um problema é o fato da personagem Hannah indicar a um conjunto de outros personagens qual teria sido o papel deles no desenvolvimento de todo o seu processo de sofrimento que teve como consequência o suicídio. Esse papel vem sendo tratado como culpa, por alguns comentadores e analistas da série, mas não me parece ser a única forma de se compreender a questão. Na medida em que Hannah apresenta aos outros personagens aquilo que eles haviam feito a ela, apresenta, na sua própria perspectiva (que é evidentemente parcial e que inclusive se mostra errada em alguns momentos, como a própria narrativa demonstra). Ademais, ela própria explica que o fato deles estarem sendo mencionados nas fitas não significa que necessariamente tenham tido a intenção de fazerem o que fizeram em algumas vezes sequer saberiam o que teriam feito, o que também me parece consequente. Assim, por um lado apresenta uma postura característica das pessoas de nosso tempo, de interpretarem o mundo a partir de si e do que acham que o mundo é, independente do que ele de fato seja, expressando uma primazia da vivência e do indivíduo sobre a realidade; por outro, apresentam também os limites dessa forma de compreensão, na medida em que as análises da personagem se mostram equivocadas.
Certamente, as participações dos diversos personagens no processo de sofrimento de Hannah são de ordens diversas e têm pesos distintos, mas a série aponta para o fato de que algo de pequena relevância para alguns sujeitos (ou ainda para quem perpetra determinado ato) pode ser percebido e interpretado de maneira distinta por quem esteja em sofrimento e que as pessoas devem ser mais responsáveis nas suas relações e nesse sentido, me parece consequente. Não nos esqueçamos da forma como os jovens que carbonizaram o índio Gaudino ou ainda os outros jovens que agrediram uma trabalhadora que voltava para casa, no ponto de ônibus, justificaram seus atos... Os primeiros afirmaram não saber que era um indígena, achavam que era um mendigo, o outro grupo, disse ter pensado ser a mulher uma prostituta (diga-se de passagem, uma trabalhadora também). Pensemos ainda em situações mais próximas daquelas relatadas na série, quantas vezes presenciamos ou tomamos conhecimento, de garotas e garotos que foram isolados por seus grupos de amigos por fazerem ou deixarem de fazer algo que o grupo desejava, quantas vidas foram devastadas (e algumas tiveram o mesmo fim adotado por Hannah) por falsas histórias sobre suas vidas ou por verdadeiras que foram divulgadas de forma inconsequente? A série não explicita nada que não aconteça aos quilos, nos mais diversos espaços dessa sociedade, mas tampouco avança na explicação desses fenômenos.
A personagem quer que as pessoas saibam o que fizeram para ela e como isso repercutiu nela, o que pode ser entendido por alguns como vingança, por outros, como uma tentativa de que eles reflitam e deixem de fazê-lo. Mas a série peca, na medida em que não apresenta esses mesmos sujeitos e suas formas de agirem também como um produto das relações desumanizadas e desumanizantes do capitalismo, tendo como uma das maiores expressões um personagem que estupra as garotas porque acha que elas o desejam, o que, vale dizer, corresponde à realidade em uma medida que não é pequena, já que não são poucas as histórias (e essas são apenas aquelas que vieram à tona) de jovens estupradas em festas universitárias e afins.
[É necessário aqui, aprofundar essa questão. Quando eu menciono a questão do estupro (e a menciono como tal, sem qualquer intenção ou interesse em diminuí-la), e a uno com um conjunto de outras situações como o assassinato do índio Gaudino ou a violência contra uma trabalhadora. Não acho que nenhuma das três situações sejam perdoáveis, minimizáveis ou desculpáveis, mas as menciono para enfatizar em um aspecto do processo de produção da consciência, que é a alienação, aspecto que busco marcar para além dessas questões e nesse sentido, tento destacar o processo de desumanização ao qual estamos submetidos (em diferentes níveis) e que se expressa, inclusive, numa desumanização do outro, ou seja, se for mendigo podem ser mortos, as prostitutas podem ser violentadas, as mulheres podem ser estupradas. Todas essas compreensões são produto de um conjunto de relações sociais e de determinadas formas de educação. Tomo o personagem não pelos fatos que sabemos pela posição de expectadores, mas pelo que ele expressou de si e da sua consciência e isso não faz dele menos estuprador ou menos responsável pelos seus atos e o faço porque realmente me parece que na vida real, um conjunto de homens acha que as mulheres existem para corresponder aos seus desejos e isso não faz deles menos machistas, sexistas, misóginos ou estupradores, do que sejam de fato.
Estaria relativizando a gravidade do estupro, na medida em que colocasse que se para ele não era um estupro, não o seria de fato. Fique claro que todo sexo não consentido (ou com consentimento dúbio, forjado ou coagido, o que sequer seria consentimento), é estupro! Os sujeitos são responsáveis por suas ações mesmo quando não foram capazes de avaliar corretamente o que elas produziriam e nesse caso, sequer disso se trata, já que o personagem em questão estupra uma mulher inconsciente e usa de violência física evidente em outra situação.
No caso da série, o lugar de expectador nos permite um conjunto de percepções e inferências a partir delas e, além disso, tratam-se de personagens fictícios, que sequer possuem uma consciência verdadeira de qualquer coisa. Nesse sentido, as cenas deixam muito claro tratarem-se de estupros e pela narrativa, fica evidente também que não o fato não se restringiria às duas situações apresentadas, mas seria algo recorrente.]
Ainda é relevante indicar a crítica que é apresentada à forma como a escola (e me parece que também traz alguma correspondência com a realidade de muitas das nossas instituições de ensino, nas suas mais diversas esferas) está muito mais preocupada em se safar de um processo e não se expor, do que de fato com o suicídio da jovem ou com as relações que ali acontecem. Quanto nossas escolas, por motivos diversos, mas também pela pressão que lhes vem sendo feita, não têm expressado algo semelhante? Uma análise de alguns suicídios relacionados ou ocorridos em instituições escolares explicitam situações tão aterrorizantes quanto essas ou até mais. Escola, vale lembrar, aquela instituição em que os/as jovens, que representam um dos picos nos índices de suicídio relativos a faixas etárias (15 a 25 anos), passam uma parte considerável de seu tempo. Pelo menos aqueles que não têm que trabalhar ou que por algum motivo estejam privados do acesso a tal instituição.
Passam uma parte considerável do tempo qualificando sua força de trabalho para, se tudo der certo, terem o privilégio de serem explorados. Se tudo der certo porque, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho, em seu relatório de 2014, o índice de desemprego ente jovens é da ordem de 13 para cada 100.000 habitantes, o que se expressa em um total de 73,6 milhões de jovens desempregados mundialmente. Atentemos para o fato de que os que estão empregados não estão necessariamente em um emprego que dê quaisquer condições mínimas de trabalho (telemarketing, Fast food,...). Isso para não entrar nos inúmeros outros problemas envolvendo as condições de trabalho e estudo nessas instituições educacionais.
Dentro desse tema geral da escola e de sua reação diante do suicídio de uma de suas alunas, apresenta-se o dilema vivido pela advogada, mãe de um dos estudantes da escola, entre lançar mão de estratégias de exposição da jovem para aumentar suas possibilidades de ganhar o caso ou correr o risco de perdê-lo, preservando a memória da garota. Quantas vezes esses fatos não ocorrem? Quantas vezes, mesmo com uma intenção preventivista, não se reduz e envilece a memória ou a personalidade das pessoas, para que outras não sigam seus atos ou para que os motivos que se explicitam sejam velados? Mais um conjunto de fatos que não acontecem pouco e que envolvem o suicídio, mas são constantemente silenciados.
Das diversas posições que tive acesso, outra questão que surgiu foi relacionada aos Pais e ao psicólogo da escola. Li que seria impossível que pais não percebessem o que vinha ocorrendo com seus filhos, como aparece na série. Bem, no planeta em que vivo, dentre outros elementos que já foram apresentados, esse é mais um daqueles que é absolutamente comum. A alienação dos pais se apresenta das mais diversas formas, mas vamos nos concentrar nos pais de Hannah. Donos de uma farmácia que tenta sobreviver a uma multinacional, como acontece em todos os cantos, com agricultores, comerciantes e trabalhadores às vésperas de terem as condições de trabalho precarizadas pelas grandes multinacionais (é só pensar nas fraldas das caixas do supermercado Carrefour). A impressão que tenho é que os pais, frente à necessidade de manter sua vida e a dificuldade desse processo, começam a expressar também um conjunto de problemas de outra ordem, como os conjugais e não percebem o que está se passando com sua filha, apesar da série ainda demonstrar a existência de uma preocupação deles com a garota.
O psicólogo, na série, como muitas vezes, na vida, não foi capaz de perceber um conjunto das coisas que ali ocorriam, com Hannah e com outros/as estudantes e tampouco foi capaz de intervir adequadamente nesse processo. Da mesma forma os/as professores/as, que na vida real, muito comumente assoberbados de trabalho, com baixa remuneração e um número grande de estudantes e salas de aula para lecionarem, são incapazes de perceber as necessidades de seus alunos e alunas. Tudo o que aconteceu foi às costas da instituição e de seus partícipes, como não é incomum acontecer, vale a reflexão de nossa parte, olhem para os lados e vejam se isso não acontece agora mesmo e você sequer se deu conta.
Agora, é fato que mostrar Hannah cortando os pulsos foi absolutamente desnecessário, como foi o cena final de Dançando no Escuro, o estupro do Irreversível e um enorme conjunto de cenas e recursos que foram usados em diversos filmes, séries, novelas. Sério mesmo que o problema é esse? Porque realmente não me parece. É verdadeiro que há inúmeras recomendações para que não se mostrem ou não se expliquem as formas eficazes de se tirar a vida, mas não acho honesto dizer que é porque isso induz as pessoas a cometerem suicídio, mas sim porque isso pode aumentar as possibilidades de sucesso daquelas pessoas que já desejam fazê-lo. Se olhado por um ângulo ou por outro me parece fazer diferença. Para cima e para baixo as pessoas estão falando de gatilhos... Não são séries, músicas ou livros que matam, mas a vida... as relações que as pessoas estabelecem e às quais estão submetidas e muitas vezes sequer têm qualquer condição de agir sobre elas!
Não é sem motivo a preocupação de muitos dos que vêm manifestando suas posições diante da série de que aquelas pessoas que estejam fragilizadas devem ser cuidadosas ou até mesmo evitar assisti-la, pelo menos no momento, tampouco é sem motivo a indicação de que as discussões sobre o tema devam ser norteadas por pessoas que tenham algum domínio sobre ele, com vistas a trazer a discussão de forma responsável. Agora, tampouco isso se refere exclusivamente a essa série, se eu sei que um filme, livro, atividade, vai me fazer mal e se eu tenho algum controle sobre essa exposição, certamente eu devo evitá-la. O problema é que sobre a vida e um conjunto das suas relações, muitas vezes não temos controle e somos expostos a determinadas situações independente de nossas vontades.
A vida empobrecida (nas suas múltiplas esferas) a que a imensa maioria de nós estamos expostos vem produzindo uma discrepância entre a forma como compreendemos a realidade e o que a realidade é. Nesse sentido, na medida em que o mundo e nossa compreensão não correspondem, a possibilidade de fracassar em nossas investidas sobre a realidade aumentam, aumentando as frustrações, as decepções e os sofrimentos. Esse processo de desumanização tem consequências tanto em relação aos recursos para superar determinadas adversidades quanto na produção de sujeitos que sejam muito pouco capazes de se reconhecerem nos outros, dado o grau de dessensibilização e desumanização.
Para terminar, não poderia me privar a falar do “efeito Werther”e da ideia de contágio, que estão sendo tão evocados nesses debates. A primeira questão que vem à baila é o fato de que um dia, a sociedade teve que se enfrentar com o produto de um Goethe e o abalo que sua obra causou, hoje, nosso problema é uma série televisiva comercial de qualidade questionável de uma empresa capitalista, baseada também em um livro de 2007 e que não causava furor até ser televisionado. Só aqui, me parece que já se explicita um pouco a profundidade do foço em que estamos metidos.
“Os sofrimentos do jovem Werther” é uma obra literária escrita por Johann Wolfgang Goethe em 1774, inaugurando o que seria conhecido como romance burguês. Inaugura também, na literatura, um fenômeno que Jean Jacques Rousseau havia inaugurado em 1762 na Filosofia, com seu “Emílio, ou da Educação”, mas que teria sua compreensão “científica” apresentada somente em 1904, com a obra de Granville Stanley Hall, “Adolescence...”, a adolescência. É ainda o marco inicial do Romantismo na literatura, escola filosófica e literária que se opõe ao Iluminismo e ao Racionalismo característicos da burguesia em seu período revolucionário. O livro é conhecido ainda por ter grande número de suicídios a ele relacionado.
Ou seja, estamos falando de uma obra de grande importância para a literatura universal e para a compreensão da sociedade daquele tempo e para além dele. Estamos falando também de um clássico, tanto no que se refere à obra, como ao seu autor. Os clássicos o são, porque são capazes de sintetizar em suas obras (de arte, filosofia ou ciência), aquilo que há de mais desenvolvido em seu momento, são capazes de capturar o espírito de sua época naquilo que tange a suas obras, assim, tornam-se capazes de explicar seu tempo e para além dele, são contemporâneos fora de seu tempo.
Além de ser um clássico, Goethe produziu essa obra, com duas partes, uma de caráter autobiográfico, já que nela relata algo que ocorrera consigo. Conta sobre a ida de Werther ao campo, hábito comum à juventude aristocrática, para espairecer. Lá conhecera Charlotte, uma moça que era prometida a Albert como esposa. Na vida real, Goethe também conhecera uma moça, homônima à sua futura personagem, por quem, como Werther, se apaixonara, todavia, a Charlotte da vida real, não só era prometida a alguém, mas sim, casada. Frustrado em seu amor, Goethe volta para sua cidade, onde, algum tempo depois, recebe uma carta do marido de Charlotte contando com riqueza de detalhes o suicídio de um jovem que Goethe conhecera em sua viagem, essa é a segunda parte do livro, como se tratassem ambas as partes de um mesmo sujeito, Werther. Ou seja, trata-se da narrativa, em forma epistolar, das desventuras amorosas do próprio Goethe e de outro sujeito real, chamado Karl Wilhelm Jerusalem. A obra captura o espírito da época ao narrar a vida das pessoas reais de seu tempo, pelos olhos delas próprias ou de quem com elas convivera.
De fato, de acordo com a literatura sobre história do suicídio, não foram poucos os suicídios atrelados ao livro, todavia, a ideia que subjaz ao conceito de “efeito Werther” é a de um contágio, como se a leitura do livro ou o acesso a determinadas notícias produzissem nas pessoas ideações e intentos suicidas e o que estou tentando mostrar é que não é bem assim que as coisas acontecem.
O reducionismo complementar àqueles que foram mencionados anteriormente (orgânico e psíquico), é o social, também chamado de sociologismo. A ideia de contágio e de ondas suicidógenas, como se fossem um efeito social em que os indivíduos, com o conjuntos de suas características, não participassem ativamente do processo, atrapalha tanto na compreensão do fenômeno quanto a individualização do suicídio ou ainda sua redução ao caráter exclusivamente orgânico (ou quase) dos indivíduos.
Na leitura do Werther, bem como na audição de Gloomy Sunday, as pessoas não são tocadas por um desejo de se matarem ou contagiadas por ideações que lhes sejam estranhas, mas elas se reconhecem naqueles sentimentos e muitas vezes, numa forma de resolução que eles também expressam. Esses fenômenos não produzem nada que já não esteja ali, ao menos como possibilidade, no próprio conjunto das relações. Não é o livro, a música, o filme ou a série, mas a vida, que produz o desejo de abandoná-la, nossos esforços devem estar menos em queimar livros, proibir músicas ou indicar que não se assistam séries e mais em tentar mudar aquilo na vida das pessoas que lhes produz o desejo de abandoná-la.
A série se limita a uma análise restrita das relações imediatas de Hannah, não explicita o que produz garotos que estupram com a naturalidade de quem não faz nada demais, de quem não consegue ser empático ao sofrimento alheio, de quem faz o que for preciso para se destacar ou se sair bem, apresenta ainda, uma adolescência estereotipada, mas é nessa série que nossos/as jovens estão se reconhecendo, é ela que está capturando a atenção deles, expressando seus valores, anseios e desejos, eu também lamento muito por isso, mas nos cabe entender o que isso está nos dizendo sobre a sociedade e suas relações. Mas tampouco nos basta entender a série e o que há por trás desse fenômeno exclusivamente, precisamos buscar entender as raízes profundas desses processos no conjunto das relações necessárias para a produção e reprodução da vida, tal como estão organizadas nesse modo de produção, é ali e não em qualquer outro lugar, que se produzem as condições para que tudo isso que estamos denunciando aconteça e é ali que é preciso intervir, mudando radicalmente a forma como a vida se organiza, como as pessoas se relacionam para viver.
A série, em diversos aspectos, é pesada, mas a realidade é infinitamente pior! Há os que estejam muito preocupados com a ficção, quando devíamos estar infinitamente mais preocupados com a realidade!

Nilson Berenchtein Netto é professor na Universidade Federal de Uberlândia,
Psicólogo, Doutor em Educação: Psicologia da Educação, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2012) e mestre em Psicologia: Psicologia Social, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2007). Cursou seu doutorado com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Social, Psicologia Escolar e Educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: Psicologia Histórico-Cultural, desenvolvimento humano, Psicologia Social, infância e adolescência, Saúde do Trabalhador, violência e suicídio.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Feminismo, uma visão sócio histórica do empoderamento feminino.


Este foi o post que puliquei na pagina de meus queridos ex alunos: siga aqui --> Na roda com psicologos.
Boa leitura.

O feminismo, uma visão sócia histórica do empoderamento da mulher


Por Raquel A. Cassoli (Profa do curso de Psicologia da Unipaulistana. Mestre e doutoranda em Psicologia da Educação)

Desde 2015 o Brasil está vivendo o que seria a “primavera das mulheres”, diversos movimentos passaram a lutar contra a opressão vivida pelas mulheres, especialmente nas mídias virtuais que se transformaram em manifestações diversas no mundo real. O gatilho dessa revolta das mulheres contra o patriarcado se evidenciou após a exibição do programa MasterChef Junior, onde uma participante de 12 anos passou a ser assediada por adultos na internet, que não se intimidaram em registar o ato criminoso nas redes sociais (assediar sexualmente uma criança menor de 14 anos é crime) O assédio sexual revelou a cultura do estupro através da hashtag #meuprimeiroassedio lançada pelo coletivo Think Olga para o mapeamento do assédio sexual dirigido as crianças.

A campanha teve um impacto tão grande que teve eco nos Estados Unidos e na Europa com a hashtag em inglês #firstharassment. O resultado foi incomodo para as mulheres: 82 mil relatos de assédio, 77% das mulheres já foram molestadas e a constatação de que o primeiro assédio ocorre entre 9 e 11 anos de idade, onde muitas vezes as meninas ainda não possuem corpo de mulher e não entendem porque aquilo está acontecendo com ela. Entre os relatos mais comuns estão assédio no transporte coletivo, apalpadas e beijo forçado em locais públicos e baladas.

A pedofilia está entre as doenças classificadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) entre os transtornos da preferência sexual. Pedófilos são pessoas adultas (homens e mulheres) que têm preferência sexual por crianças – meninas ou meninos - do mesmo sexo ou de sexo diferente, geralmente pré-púberes (que ainda não atingiram a puberdade) ou no início da puberdade, de acordo com a OMS. A reflexão que quero trazer aqui é que enquanto tratarmos a pedofilia como doença, estamos naturalizando as características humanas que são forjadas na sociedade. O primeiro dado que temos que elucidar diz respeito aos estudos realizados por Safiotti (2004) entre 1990 e1992: dos crimes de agressão sexual as mulheres representam 90% das vítimas e são agressoras em apenas 1% dos casos, ou seja, se pedofilia fosse realmente uma doença porque ela atingiria apenas homens? Então concluo que não temos uma doença, mas um modo de funcionamento social que chamaremos de cultura do estupro.

Antes de avançarmos sobre a importância da psicologia para compreensão dos fenômenos humanos, vou esclarecer alguns pontos do nosso tema, a começar pelo que é considerado machismo. Este conceito que baseia-se na supervalorização das características físicas e culturais associadas com o sexo masculino, em detrimento daquelas associadas ao sexo feminino, pela crença de que homens são superiores às mulheres. Em um termo mais amplo, o machismo, por ser um conceito filosófico e social que crê na inferioridade da mulher, é a ideia de que o homem, em uma relação, é o líder superior, na qual protege e é a autoridade em uma família.Enquanto que temos como patriarcado o sistema social tão profundamente radicada que domina todas as outras formas políticas, sociais ou econômicas, gerando um estado de exclusão e discriminação social da mulher pautado na crença dessa superioridade masculina. No patriarcado as mulheres são vistas como objetos de satisfação sexual dos homens, reprodutoras de herdeiros, reprodutoras de força de trabalho e reprodutoras de novas reprodutoras. Portanto, diferentemente dos homens como categoria social, a sujeição das mulheres, também enquanto grupo, envolve prestação de serviços sexuais aos seus dominadores/opressores.

E por fim, o feminismo como o movimento social que prega a igualdade entre homens e mulheres na construção de uma sociedade igualitária para todos. É importante percebermos que o feminismo não é contra os homens, mas sim contra o sistema patriarcal. E que alguns mitos sobre a luta das mulheres muitas vezes visam enfraquecer o movimento que já conseguiu muito pelas mulheres no mundo. Marx no Manifesto comunista já defendia essa igualdade entre homens e mulheres numa sociedade comum. Em um breve histórico, temos as ideias de igualdade surgirem na Revolução Francesa (liberdade, igualdade e fraternidade) que lutava contra opressão da burguesia, resquício da idade média, esses ideários fizeram constituir os direitos dos homens e muito posteriormente os direitos humanos.

O movimento feminista é dividido em alguns momentos, onde temos na primeira onda o movimento sufragista que defendia o voto feminino e a participação das mulheres na política, no Brasil o direito ao voto é conquistado em 1932. A segunda onda: luta pelos direitos reprodutivos, melhor acesso ao mercado de trabalho e direitos à cidadania (por volta dos anos 1970/1980). No Brasil em processo de redemocratização as feministas além de lutar pela valorização do trabalho da mulher, o direito ao prazer, contra a violência sexual, também lutou contra a ditadura militar. Na terceira onda: (por volta dos anos 1990) revisão dos paradigmas das ondas anteriores. Inclusão das mulheres negras no movimento que apareciam de forma invisível. E agora? Alguns dizem que ainda estamos na 3ª. Onda outros dizem que estamos em um novo movimento, mas ainda questionamos a educação machista, a cultura do estupro e a opressão contra a mulher.

Alguns dados sobre essa opressão: As mulheres trabalham em média 5 horas a mais que homens (IBGE/2014), no trabalho informal, o salário das mulheres representa 65% do salário dos homens. No trabalho formal, essa diferença é um pouco menor, mas representa 75% do rendimento deles. Dos crimes de agressão sexual as mulheres representam 90% das vítimas e são agressoras em apenas 1% dos casos. Em 71,5% dos casos os pais biológicos eram agressores. (SAFIOTTI, 2004), 3 em cada 5 mulheres jovens já sofreram violência em relacionamentos. (Instituto Avon e Data Popular (nov/2014).56% dos homens admitem que já cometeram alguma dessas formas de agressão: xingou, empurrou, agrediu com palavras, deu tapa, deu soco, impediu de sair de casa, obrigou a fazer sexo. (Data Popular/Instituto Avon 2013).Metade dos relatos ao Ligue 180 tratou de violência física. Em 72% dos casos, as agressões foram cometidas por homens com quem as vítimas mantêm ou mantiveram uma relação afetiva. Do total de relatos de violência registrados pelo serviço, 50,16% foram de violência física; 30,33%, de violência psicológica; 7,25%, violência moral; 2,10%, violência patrimonial; 4,54%, violência sexual; 5,17%, cárcere privado; e 0,46% referiram-se a tráfico de pessoas. É preciso transformar essa realidade.

No que diz respeito a Psicologia costumo enfatizar a necessidade da escolha de abordagens psicológicas que sejam condizentes com a leitura de homem e de mundo que permitam olhar a sociedade tal como se apresenta e transforma-la. Safiotti (2004) nos mostra que durante o século XX dois pensamentos se mostraram muito fortes: Freud e Marx, cada um ao seu modo e por suas análises da sociedade, produziram ideias e patrimônios culturais. “ No caso de Freud, porém, uma parte desta herança tem produzido resultados extremamente deletérios às vítimas de abuso sexual, em especial do abuso incestuoso. Para Freud, e hoje para muitos de seus seguidores, os relatos das mulheres, que frequentavam seus consultórios, sobre abusos sexuais contra elas perpetrados por seus pais eram fantasias derivadas do desejo de serem possuídas por eles, destronando, assim, suas mães. Na pesquisa realizada entre 1988 e 1992 (Safiotti, 1992) não se encontrou um só caso de fantasia. A criança pode, e o faz, enfeitar o sucedido, mas sua base é real, isto é, foi de fato molestada por seu pai. Contudo, o escrito de Freud transformou-se em bíblia e a criança perdeu a credibilidade. ”(SAFIOTTI, 2015 p.20)

Safiotti ainda contempla que 71,5% dos agressores sexuais eram os pais biológicos das vítimas e esta visão sobre a criança tem sido a mais predominante na psicologia especialmente na área clínica. Bock (2000). Nenhuma abordagem superou a perspectiva mecanicista e determinista presentes nos primórdios da ciência psicológica: interno X externo? Psíquico X Orgânico? Comportamento X Experiências subjetivas? – a compreensão do fenômeno psicológico fica incompleta, naturaliza as ações e as características humanas. A psicologia tem responsabilizado o sujeito por seus sucesso e fracassos, fala-se da família sem considerá-la em seu contexto social, fala-se do corpo sem inseri-lo na cultura. A Psicologia Sócio histórica surge baseada na Psicologia histórico- cultural de Vigotski e propõe superar essas contradições e olhar o homem como social, agente de sua história e construtor de sua cultura. O mundo psicológico é um mundo de relação dialética com o mundo social, o fenômeno se constitui em um processo de conversão do social para o individual. Assumindo essa visão de homem e de mundo podemos afirmar com clareza que o pedófilo não é doente, não é monstro ou "aberrações" sociais, mas sim o produto perfeito do patriarcado.

No patriarcado, meninas são adultizadas e mulheres adultas infantilizadas inclusive, é desejado ausência completa de pelos no corpo como nas crianças. Existe uma grande rede “educativa” no senso comum eu contribuem para isso, comentários como "ela sabe bem o que está fazendo" e "meninas amadurecem mais cedo" são muito favoráveis a exploração da criança.   Há ainda, não só da aceitação de relacionamentos entre meninas e homens adultos, mas também da sua romantização. Exemplos de artistas famosos com mais de o dobro da idade de suas namoradas e romances como “Lolita”. A visão sócia histórica da psicologia busca compreender o papel da cultura e da sociedade na educação e formação dos indivíduos e propor transformações

Olhar para a sociedade e a cultura permite reconstruir alguns paradigmas e mudar leis á favor da mulher, o movimento feminista é importante para o levantamento de problemas culturais e educacionais que possam ser combatidos. A mulher tem se mobilizado, não apenas com informações que podem quebrar o ciclo da violência, mas na oferta de uma rede que ampare a saúde, a educação e os direitos das mulheres que estão sempre negligenciados. Em São Paulo o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde oferece atendimento as mulheres que buscam conhecer melhor sobre sua saúde e quebrar o atendimento machista dado pelas ciências médicas e psicológicas. Outros coletivos na internet buscam conscientizar sobre relacionamentos abusivos, violência física e psicológica.  Para a psicologia é preciso cada vez mais uma atuação que seja livre de pré conceitos machistas, eu considera a o social na formação humana e acolher cada vez melhor as mulheres  vítimas de qualquer forma de violência, sem culpa-las para que possam transformar a realidade e buscar a felicidade.

Fontes:
Documentários: “She´s beautiful when she´s angry” (disponível no Netflix)

Livros:
SAFIOTTI, Heleieth. Gênero Patriarcado e Violência. São Paulo: Perseu Abramo, 2015

BOCK, Ana Mercês Bahia. Psicologia Sócio histórica: uma perspectiva critica em Psicologia. São Paulo: Cortez, 2000

BEAUVIOR, Simone de. O segundo sexo: fatos e mitos. São Paulo: DifusãoEuropeia do Livro, 1960.

Online:
Coletivo feminista sexualidade e saúde: http://mulheres.org.br/saude-das-mulheres/


Think Olga que começou a campanha #chegadefiufiu: http://thinkolga.com/

Revista online Az Mina: http://azmina.com.br/


Blogueiras feministas: http://blogueirasfeministas.com/